Tornar-me digital?

Com o início da situação pandémica e para tentar combater a crise que o sector está a atravessar, muitos artistas e organizações viraram-se para o meio digital para, de alguma forma, continuar a sua atividade. Mas poderá ser essa a solução, quando não se prevê (se é que irá haver) um regresso à normalidade? Não tenciono deixar soluções mágicas (até porque não existem), mas fazer um apanhado sobre as várias possibilidades, bem como alguns prós e contras.

Mesmo que possam funcionar com restrições sanitárias, a grande maioria das atividades culturais precisa de ter gente, quer na plateia, quer em cima do palco, que possa interagir, para que a arte se cumpra. Por isso e por muito que parte da experiência possa ser “digitalizada”, esta opção nunca será uma substituta efectiva, pelo menos nos formatos que hoje conhecemos. Não excluo no entanto, que para futuras gerações o acto de ir fisicamente a uma sala de espetáculos ou museu, possa ser tão estranho ou desnecessário como é, para a maioria de nós, ir a um tanque público lavar a roupa…

Com o confinamento, muitos dos artistas viraram-se para o online. Muitos músicos fizeram concertos caseiros para os seus seguidores nas redes sociais, salas de espetáculo promoveram e transmitiram em streaming ou publicaram gravações, organizaram-se festivais e conferências totalmente digitais, etc, etc.

Hoje, existem muitas ferramentas que permitem que seja relativamente fácil um agente cultural mostrar o seu produto via digital. As redes sociais na sua maioria permitem publicar conteúdos ou transmitir em direto. Neste ponto, o algoritmo destas plataformas dão preferência a conteúdos em direto, pelo que será preferível dar prioridade a esse formato.

A título de curiosidade, aqui ficam as principais características de cada plataforma:

Youtube

  • Permite transmitir ao vivo a partir do computador ou telefone
  • Oferece a mais alta qualidade de vídeo
  • Permite programar transmissões ao vivo para qualquer momento no futuro, permitindo avisar o seu público
  • O público pode comentar em tempo real
  • Permite ter uma secção de ‘vídeos ao vivo’ no canal
  • Permite enviar notificações básicas ao público, antes e durante as transmissões ao vivo
  • Os vídeos continuam disponíveis após a transmissão
  • É necessário ter 1000 subscritores do canal para fazer diretos a partir do telemóvel

Facebook

  • Permite transmitir ao vivo a partir do computador ou telefone
  • Qualidade máxima de 720p
  • Permite agendar transmissões ao vivo com até sete dias de antecedência, de forma a avisar o público
  • Permite criar eventos do Facebook para transmissões ao vivo, permitindo dar mais informações e criar notificações
  • O público pode comentar em tempo real
  • Permite enviar notificações antes e durante as transmissões ao vivo
  • Os vídeos continuam disponíveis depois da transmissão

Twitter

  • Só permite transmitir em direto a partir do telemóvel
  • Qualidade máxima de 720p
  • Não há função de agendamento
  • O público pode comentar em tempo real
  • Permite enviar notificações durante as transmissões ao vivo (mas os utilizadores têm que ativar)
  • Os vídeos continuam disponíveis depois da transmissão
  • Permite convidar pessoas para participar na transmissão ao vivo nos seus dispositivos

Instagram

  • Só permite transmitir em direto a partir do telemóvel
  • Qualidade máxima de 720p
  • Não há função de agendamento
  • O público pode comentar em tempo real
  • Permite enviar notificações durante as transmissões ao vivo
  • Os vídeos não continuam disponíveis depois da transmissão
  • Permite convidar pessoas para participar na transmissão ao vivo nos seus dispositivos

Como é óbvio, transmitir um concerto ou espetáculo online nunca será o mesmo que o fazer ao vivo. Por muito boa qualidade que tenha a transmissão, qualidade de som, imagem e dos dispositivos onde o público está a visionar, a experiência nunca será a mesma. Por isso mesmo, o objetivo nunca poderá ser tentar replicar a experiência ao vivo , correndo o risco de rapidamente perder o interesse por parte do público.

Por exemplo, se se analisar o número de visualizações de transmissões de algumas organizações, facilmente encontramos números na ordem dos milhares de visualizações. O problema é que, por exemplo, o Facebook conta como visualização a partir dos 3 segundos, ou seja, ter esses milhares não significa que essas pessoas estiveram mesmo a assistir. Provavelmente muitas delas só pararam um pouco ao fazer o scroll no seu Feed, estando apenas algumas centenas a assistir em simultâneo ao longo da transmissão. O importante é conseguir manter o público “preso” em grande parte da transmissão e essa é a parte difícil, numa época em que facilmente a pessoa é distraída por outras chamadas de atenção, o que não aconteceria tão facilmente se o tivesse a assistir ao vivo.

A organização/artista deverá analisar o seu conteúdo/produto e equipamentos/condições técnicas que tem disponíveis e tentar perceber qual a melhor forma de o adaptar aos pequenos ecrãs, de uma forma que cative e envolva o público.

O contra mais importante é o problema da obtenção de rendimentos ou monetização dos conteúdos online. Serão muito poucas as pessoas que estão, à partida, dispostas a pagar bilhete para um concerto online, mesmo que seja uma produção de qualidade. Só que, o perigo de ceder conteúdos gratuitamente é diminuir a disponibilidade das pessoas para pagar por eles posteriormente. Há várias formas de obter rendimento diretos ou indiretos com a disponibilização de conteúdos online: através da criação de links de donativos na transmissão, venda de bilhetes (acessos), crowdfunding ou a venda de merchandising.

Independentemente do modelo escolhido, o importante é que se consiga criar valor e interesse para o público no conteúdo apresentado, de forma a que ele assista à transmissão e depois que a valorize de tal forma que esteja disposto a pagar ou a deixar a sua contribuição. A comunicação anterior à transmissão é muito importante e deverá ser capaz criar um ‘hype’ grande, nomeadamente entre os mais seguidores, possibilitando que estes sejam também agentes de promoção, partilhando o evento. E depois, o evento deverá ir de encontro às expectativas criadas, com conteúdo que seja interessante e adequado à plataforma utilizada. Por exemplo, quando um utilizador do Facebook ou Instagram se encontra a assistir a um ‘direto’, parte do interesse é também interagir com o promotor do direto e com as outras pessoas que estão a assistir, ou então, alguém que esteja disposto a pagar o acesso a uma transmissão em direto de um bailado de uma determinada companhia, para poder ver no seu televisor de 55 polegadas, não vai gostar que a qualidade de som e imagem seja fraca. Negligenciar estes aspetos, poderá pôr em causa qualquer possibilidade de obtenção de rendimentos e mesmo assim, isso não está assegurado.

A obtenção de rendimentos através dos meios digitais, apesar de ser uma necessidade urgente para o sector, é um ainda um caminho longo e difícil que as organizações culturais têm que fazer, sendo também necessário uma mudança de mentalidades na sociedade. Esperamos, no entanto, que esta necessidade seja o mais passageira possível, regressando rapidamente às salas cheias e sem restrições e ficando as ferramentas digitais como meios complementares à criação e divulgação artística.

De Rafeiro a Estrela

Qualquer organização cultural/artista, quer seja criador ou programador, tem um portfólio de produtos, em que uns têm mais rentabilidade ou perspectivas de evolução do que outros. Conseguir distinguir uns de outros é essencial para perceber o investimento necessário e definir as estratégias mais adequadas para cada produto.

A Boston Consulting Group criou uma matriz (chamada matriz BCG), que utiliza os critérios “Quota de Mercado” e “Crescimento de Mercado” para determinar a atractividade e o equilíbrio de um determinado portfólio de uma empresa. As organizações culturais também podem utilizar esta mesma matriz para perceber a atractividade dos seus produtos e consequentemente definir as melhores estratégias a adoptar para cada um.

Matriz BCG

Estrelas

Os produtos estrela são produtos com muita quota de mercado, num mercado que está em crescimento. Poderá implicar um forte investimento na organização para conseguir acompanhar o crescimento desse mercado, mas como tem uma quota grande, o retorno deverá ser mais do que suficiente para compensar esse investimento. No mundo cultural, poderá traduzir-se num novo festival ou tipo de espetáculo mais ou menos inovador, cujo conceito tem vindo a ganhar adeptos e que por isso está em crescimento. Por exemplo, as feiras medievais há uns anos.

Vacas Leiteiras

São os produtos da organização que têm uma quota de mercado alta num mercado já estabelecido. Como o crescimento deste mercado é pouco, significa que não será necessário grandes investimentos e como a organização já tem uma quota grande deste mercado, o produto deverá ser lucrativo. Estes produtos poderão ser uma fonte importante de receita, para que a organização possa financiar outros projetos. Falamos por exemplo de festivais já instalados e com prestígio, eventos sazonais (ex: sessões de circo de Natal no Coliseu) ou de determinado espetáculo de alguma companhia de teatro ou dança com notoriedade.

Pontos de Interrogação

São produtos cujo o mercado se encontra em crescimento, mas que ainda não conseguiram obter uma quota significativa desse mercado. Para que se consiga transformar estes produtos em produtos estrela, poderá ser necessário fazer investimentos fortes, sem que, no entanto, isso signifique que o sucesso seja obtido. Aquando a criação de novos projetos artísticos, por defeito eles serão Pontos de Interrogação, devendo a organização/artista definir as melhores estratégias para que estes se tornem Estrela. Poderá ser útil ou aconselhável que as organizações tenham no seu portfólio vários Pontos de Interrogação.

Rafeiros

São os produtos com pouca quota de mercado num mercado estagnado ou em declínio. Podem ser produtos consumidores de demasiados recursos e tempo, tendo em conta o seu retorno. Por norma, serão os produtos em que as organizações deverão ponderar o seu encerramento

Esta matriz poderá ser um ótimo meio para que as organizações visualizem as diferentes necessidades e potenciais dos seus produtos, percebam as necessidades financeiras que cada um poderá ter ou aqueles em que se poderá obter maiores proveitos que financiem os restantes (nomeadamente os Pontos de Interrogação). Também poderá ajudar a definir as estratégias de marketing necessárias para cada um deles.

É preciso também que as organizações tenham em mente que a classificação dos produtos não é estática e que os produtos que num determinado momento estejam colocados num determinado quadrante, mais tarde ou mais cedo, poderão deslocar-se para outro. Ou seja, produtos Vacas Leiteiras, facilmente poderão tornar-se Rafeiros, caso o interesse pelo produto se desvaneça ou voltarem a ser Estrelas, caso haja alguma alteração tecnológica ou no ambiente externo que faça o mercado voltar a crescer (sendo necessário, naturalmente, que haja um investimento que os consiga fazer acompanhar). Poderá, também, ser difícil para uma organização deixar “morrer um Rafeiro”, se, por exemplo, esse Rafeiro fôr um produto emblemático (ou com valor sentimental) da organização, de tal forma que faça parte da base da organização, mesmo que já não tenha nenhum rendimento.


Deixem o vosso comentário e se gostaram, partilhem. Gostaria perceber as vossas principais como utilizam as redes sociais, quais as principais dificuldades e sucessos que tiveram.


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Quero algo… inovador?

A forma como os consumidores encaram a possibilidade de experienciar um novo produto difere imenso, sendo alguns mais adversos ao risco do que outros e isso também é verdade nos produtos culturais. Para atrair o público, as organizações devem, por isso, perceber as suas motivações pessoais, como forma de adaptar a sua programação, mas acima de tudo a sua mensagem.

A Teoria da Difusão da Inovação de Everett Rogers, agrupa o público (consumidores) pela sua predisposição para experimentar novos produtos:

Inovador (2,5%)

Os Inovadores são apenas 2,5% dos consumidores e são aqueles que estão sempre dispostos a experimentar produtos novos. Procuram novos estímulos e gostam de estar presentes nas estreias, em novas produções ou em espetáculos de estilos artísticos vanguardistas. São jovens, financeiramente estáveis e com educação superior.

Adoptante precoce (13,5%)

São aqueles que seguem o exemplo dos Inovadores, mas podem ser considerados aqueles que vão “estabelecer as tendências” para as maiorias. Demograficamente são semelhantes ao grupo anterior, mas não têm tantos contactos e conhecimentos. Eles irão frequentar/consumir determinado novo produto cultural porque “ouviram dizer daqueles que percebem” que é a “nova cena”. Se este grupo gostar, serão eles a influenciar as Maiorias.

Maioria Inicial (34%) e Maioria Tardia (34%)

Estes dois grupos são constituídos essencialmente por pessoas da classe média e que, quando tomam decisões seguem os conselhos de outros grupos de influência. A Maioria Inicial irá seguir as indicações através dos vários tipos de media (ex: críticos) e se virem que os Adoptantes precoces consideraram algo um sucesso, também irão aderir.

A Maioria Tardia, é um pouco mais velha e menos rica do que a Inicial e também ainda mais adversa ao risco. Confiam mais na opinião dos amigos e conhecidos do que na dos media e só irão frequentar algo se estes tiverem gostado. Nesta fase da vida do produto, os Inovadores e Adoptantes precoces já perderam o interesse e já não o frequentam.

Retardatários (13,5%) e Não-adoptantes (2,5%)

Os Retardatários são aqueles que não têm grande interesse em novas experiências. Não têm muita confiança em frequentar um teatro ou concerto, porque consideram que não irão perceber nada do que está a acontecer e que até se podem sentir ridicularizados. Pode ser difícil motivá-los a deslocarem-se ao produto cultural, mas é possível alcança-los levando o produto cultural até eles, por exemplo com concertos em locais públicos.

Os Não-adoptantes, para além de não ter qualquer interesse nos produtos culturais, são até bastante hostis com a cultura, por considerarem que esta é uma ameaça aos seus valores. O máximo que as organizações conseguem com este grupo é neutralizar a sua hostilidade.

Com esta teoria em mente, as organizações devem pensar na sua programação ou produtos e perceber como é que encaixa nos vários grupos. Uma companhia de dança moderna, que está constantemente a estrear espetáculos inovadores, tem que saber que no início terá que comunicar e cativar os dois primeiros grupos, mais ávidos de coisas novas. Depois disso, quando o espetáculo já está há algum tempo em cena e ganhou alguma notoriedade, terá que mudar a mensagem, aproveitando o buzz dos dois primeiros grupos, para ganhar a confiança das Maiorias. Ou seja, a mensagem deve ser sempre adaptada ao tipo de público que queremos cativar. Uma organização mais ligada à programação, sabe, à partida, que se programar só espetáculos vanguardistas, irá estar a alhear uma fatia importante do público. Não estou a dizer que está errado, porque muitas vezes essa opção faz parte da missão da organização, mas sim que a organização tem que trabalhar toda a sua comunicação de uma forma que atraia o tipo de público correcto.


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