Uma marca com identidade

Esta semana continuamos com a introdução ao conceito de “marca” iniciada na semana passada, tentando abordar mais concretamente de que forma as organizações podem trabalhar a sua marca de maneira a que esta seja efetivamente um ativo.

A marca de qualquer produto ou organização (ou artista) é cada vez mais importante para criar ligações mais profundas com o consumidor/público, num mundo em que as pessoas são bombardeadas com os mais variados estímulos. As organizações devem conseguir criar uma narrativa (storytelling), que contextualize o seu público quanto à experiência que este obtém. Uma boa narrativa irá potenciar que o público fale sobre a sua experiência na organização, o tão desejado boca a boca positivo (a forma mais eficaz de publicidade), originando mais compromisso e encanto com a mesma. É a acumulação dessas experiências que desenvolvem a lealdade do público e que marcam a identidade e imagem de uma organização junto da sua comunidade. Imaginem assistir a uma apresentação sem qualquer tipo de contexto ou conhecimento prévio da obra e/ou organização. Certamente irão ficar com uma ideia própria sobre a experiência, mas muitos aspectos irão ficar “vazios” ou incompreendidos. Agora, se já tiverem uma imagem da experiência que irão obter e da identidade da organização, essa irá ser ou não correspondida. Quando é correspondida, a experiência terá maior impacto e significado e o público utilizará a narrativa da organização para a difundir.

“A imagem leva-nos à nossa sobrevivência e crescimento, ou ao nosso falhanço. A forma como as nossas instituições são percebidas tem muito a ver com a quantidade de bilhetes que vendemos, e a quem os vendemos, as contribuições que recebemos, e de quem as recebemos.”

William Rudman – Essentials of Effective Public Relations

Para que a imagem que a organização quer passar tenha impacto é preciso que a organização a mostre e não fale apenas sobre ela. Ou seja, a experiência terá que corresponder com o que é comunicado. Para isso a organização deverá ter uma visão holística, alinhando todos os pontos de contacto, que o seu público possa ter dentro e fora da organização, com a narrativa pretendida.

As organizações devem saber que a sua imagem deve transmite sobretudo o que elas são e não apenas o que elas fazem. Quando se pensa na Casa da Música do Porto, em Serralves ou na Gulbenkian, as associações mais imediatas não são em concertos ou exposições específicas, mas sim na sua importância cultural e histórica, qualidade dos programas, impacto regional, edifício, etc.

Devem ser criadas associações secundárias, que liguem a marca da organização a outras imagens e informações na memória do público, despoletando, mais facilmente, o seu reconhecimento. Essas associações podem ser feitas de várias formas, quer através da participação ou colaboração com outros projetos (ação social, por exemplo), através de pessoas (colaboradores ou artistas de referência), cultivando uma ligação a sítios ou regiões ou a outras marcas. A associação da Livraria Lello aos livros do Harry Potter, por exemplo, quer tenha sido intencional ou não, contribuiu muito para o reconhecimento da loja e para o desenvolvimento da sua narrativa.

Como já disse anteriormente, é a acumulação das experiências que irão definir a identidade da organização junto do seu público e da sua comunidade, mas às vezes basta uma má experiência para estragar a integridade e imagem da marca. A organização nunca pode esquecer que o desenvolvimento da sua marca não serve só para vender mais concertos ou livros. A imagem e percepção da marca terá impacto nas relações com trabalhadores, fornecedores, financiadores e claro, no público. Por isso, as organizações deverão ser honestas na experiência que proporcionam, mostrando também os pontos menos bons, mas realçando que, apesar disso, vale a pena. Deverão ser empáticas, comunicando nos termos da outra parte e não nos termos da organização e deverão saber que nem todos começam com o mesmo nível de conhecimento sobre o que a organização faz ou sobre os seus produtos.

Naturalmente, e como estamos a falar de marca, temos que ter aqui em conta todos aqueles elementos que incorporam e transmitem a imagem da marca da organização e que devem também estar alinhados com a identidade pretendida. O nome, logotipo, a assinatura ou slogan, o endereço da página de internet, grafismos dos vários elementos de comunicação, edifício, entre outros, devem contribuir positivamente para uma melhor identificação, por parte dos vários stakeholders, do que a organização faz e representa. Não é à toa que o logótipo da Casa da Música representa o icónico edifício onde esta está sediada. Há vários critérios para a escolha e definição destes elementos: serem memorizáveis e facilmente reconhecíveis; significativos da identidade que representam e apelativos. Deverão ser também transferíveis, no sentido que permitam a introdução de novos produtos ou serviços, adaptáveis à evolução de tendências e gostos e protegíveis da apropriação por parte de outros.

Na definição dos vários elementos que definem a imagem de uma organização, a mesma deverá ter em conta os seguintes aspectos: a imagem deve ser sintética, no sentido que é criada e planeada para servir um propósito e causar uma impressão; deve ser credível, no sentido que se torna inconsequente se o público não acreditar na imagem que a organização tenta passar; deve ser passiva, no sentido que deve logo à partida ser congruente com a realidade; deve ser simples e distintiva de forma a ser facilmente relembrada e deve ser ambígua o suficiente para que consiga servir propósitos futuros imprevisíveis e adaptar-se a alterações de contexto, bem como de forma a que cada pessoa, de acordo com os seus gostos e expectativas, possa retirar aquilo que mais lhe serve.

As organizações devem ter em conta que desenvolver a identidade de uma marca é um compromisso de longo prazo, que só irá ganhar força com a sua consistência, no entanto e tal como na missão, a mesma deve ser acompanhada e revista quando necessário de forma a continuar de acordo com a atividade da organização e relevante para o seu público, acompanhando, de certa forma, as dinâmicas do que a rodeia. Todas as escolhas de programação, produtos, estratégias de comunicação e prestação de serviço são elementos cruciais no processo de criação da imagem que a organização pretende apresentar e na definição de uma identidade relevante para todos, que de uma ou de outra forma, têm contacto com esta.


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Bibliografia utilizada:

  • Bernstein, Joanne Scheff. 2014. Standing Room Only, Second Edition. Palgrave Macmillan
  • Kotler, Philip; Keller, Kevin Lane. 2012. Marketing Management, 14th Edition. Prentice Hall

Marca 1-0-1

Ao longo dos primeiros artigos deste blog, fui abordando alguns dos pontos principais de um planeamento de marketing. Falei da análise interna e externa e da definição da missão da organização. Falei da importância de uma segmentação correta do público e da definição dos vários elementos do marketing-mix: produto, distribuição, preço e comunicação. Todos estes elementos, quando devidamente estruturados e alinhados, vão contribuir para a construção de um dos maiores ativos que qualquer organização ou artista pode ter: a sua marca!

Importa, antes de mais, definir o que é a marca. Marca, no seu âmbito mais simples, é um nome, um sinal, símbolo, design ou uma combinação destes, que procure identificar um produto ou serviço, de forma a diferenciá-lo de outros que procuram satisfazer as mesmas necessidades. Essas diferenças podem ser funcionais, racionais e tangíveis, ou seja, relacionadas com a performance do produto que a marca representa. Mas também podem ser mais simbólicas, emocionais e intangíveis, ou seja, relacionadas com o que a marca representa ou significa de um modo mais abstracto. As primeiras marcas começaram a aparecer quando as guildas medievais começaram a exigir aos artesãos que marcassem os seus produtos para os diferenciar dos de qualidade inferior. Nas artes, as marcas nasceram quando os artistas começaram a assinar as suas obras. Hoje em dia, as marcas têm um impacto enorme na criação de valor para um produto ou para uma organização e têm uma influência decisiva no momento de escolha do consumidor/público.

A marca é hoje um dos principais impulsionadores do interesse do público e da lealdade deste para com uma organização e as suas ofertas.

“Marca não é o que tu dizes que é. É o que eles dizem que é.”

Marty Neumeier – The Brand Gap

É o que o público, artistas, colaboradores, direção e toda a comunidade em redor da organização pensam da organização e tem impacto na reputação desta, na criação de expectativa e na percepção da qualidade das obras apresentadas e no valor que estas trazem para os participantes. A construção da imagem é o resultado da soma conjunto de interações que cada um tem com a organização.

O desenvolvimento da marca (ou branding) é algo que deve estar no coração de todas as tomadas de decisão e de toda a prática da organização e devem transmitir três aspectos chave: identidade, integridade e imagem. Todos os meios em que a organização contacta com o seu público devem estar alinhados com a marca, desde os estilo e qualidade da publicidade, dos emails, website e presença nas redes sociais, desde a experiência na bilheteira e no espaço pré e pós espetáculo, o modo como o staff se relaciona e comunica com o público e claro, o mais importante é sempre a qualidade dos produtos e das obras apresentadas. A singularidade e o posicionamento da organização é o que dá força à sua marca e que influencia a mente do público no momento da tomada de decisão.

Uma marca acarreta significados e associações e é um símbolo de confiança entre o público e a organização. Ela trabalha com aspectos emocionais e sociais. As pessoas relacionam-se com as marcas, porque se identificam com os valores promovidos por esta. Elas amplificam a sua própria noção de identidade e confirmam as suas crenças, influenciam atitudes, opiniões e comportamentos. As marcas também podem representar os ideais que um grupo de pessoas têm em comum e são um meio para que estas se sintam parte integrante de algo e de partilha de experiências.

Podemos identificar vários elementos associados ao desenvolvimento de uma marca.
O Produto, será sempre a chave na criação de uma marca forte. É através da sua programação, serviços e financiamento que a organização irá procurar cumprir a sua missão.
A Experiência refere-se a todas as interações entre a organização e os seus stakeholders, quer seja na forma em como estes acedem a informação (site, notícias, etc.), contacto com colaboradores, características do espaço físico…
A Identidade, que abarca a mensagem e posicionamento da organização passado através dos vários elementos e representações da organização, quer sejam imagens, logos, publicações, website, merchandise e outras formas de comunicação.
As Associações com outras organizações, com as quais a organização decide colaborar ou aliar-se. Quer seja através de parcerias artísticas pontuais, patrocínios/mecenato e parceiros de media.

O tema “marca” é um tema complexo e com inúmeras dimensões, pelo que será de novo abordado em futuros artigos certamente. É um tema que apesar da sua actual conotação comercial, está intimamente ligado à actividade artística a partir do momento em que as obras começaram a ser assinadas, marcando assim o cunho individual do artista e a sua diferenciação dos demais.


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Bibliografia utilizada:

  • Bernstein, Joanne Scheff. 2014. Standing Room Only, Second Edition. Palgrave Macmillan
  • Kotler, Philip; Keller, Kevin Lane. 2012. Marketing Management, 14th Edition. Prentice Hall
  • Wheeler, Alina. 2009. Designing brand identity. 3rd Edition. John Wiley & Sons, Inc