Pelo funil abaixo!

O consumidor (ou público) pode atravessar vários estágios de conhecimento e ligação com a organização ou produto cultural, desde que tem o primeiro contacto até ao momento em que finalmente executa a ação pretendida ou a sua compra. A estes vários estágios se chama o Funil de Marketing.

O Funil de Marketing tem este nome porque o número de pessoas vai reduzindo à medida que se vai avançando de estágio para estágio. Ou seja, o número de pessoas que irá assistir a determinada peça de teatro, por exemplo, será muito menor do que aqueles que já ouviram falar da mesma peça ou companhia de teatro. Conhecer os vários estágios e onde se encontra o seu público alvo, permitirá à organização definir melhor a forma como comunica e interage, delineando as estratégias adequadas a cada estágio, para potenciar a que o maior número número possível de pessoas percorra todo o Funil.

Consciência

Se a maior parte do público não conhece a organização ou da sua oferta, o primeiro objetivo da comunicação é criar consciência da mesma, ou seja, fazer com que o público tenha conhecimento da existência e do nome da organização. Numa segunda fase, o público até já pode ter conhecimento da existência da organização, mas não ter conhecimento do que faz ou da sua oferta cultural. Criar consciência, é um trabalho constante e de longo prazo. Primeiro, porque é necessário criar e manter associações positivas nas mentes das pessoas, sobre a organização, mesmo naqueles que nunca tiveram contacto direto com a mesma. E segundo, quanto mais pessoas tiverem consciência da existência da organização, mais pessoas irão querer conhecer melhor e no final comprar.

Interesse

O estágio seguinte é quando o público ganha interesse sobre a organização e os seus produtos e começa a pesquisar mais sobre a mesma. À medida que eles vão sabendo mais, interessa perceber o que ele sente sobre a organização. No caso de uma companhia que visita uma cidade pela segunda vez, por exemplo, poderá ser útil perceber o impacto da primeira visita e que passa a palavra houve. Se o feedback for positivo, como é que este pode ser utilizado na comunicação, de forma a chamar a atenção daqueles que estão a pesquisar.

Desejo

Aqui, o público já tem uma boa opinião da organização, mas pode ainda estar indeciso entre outras ofertas e atividades, devendo a organização estimular o público a seu favor. Mesmo quando já considera a organização preferível em comparação com restantes atividades, é necessário criar o desejo e a convicção que é essencial assistir ao evento ou fazer a compra e que os benefícios obtidos superam em muito os custos decorrentes.

Ação

O público pode já estar convencido a tomar ação (ou fazer a compra), mas ainda tem que dar o último passo, que é efectivá-lo. Pode haver várias razões que façam o público abandonar neste último estágio. Por exemplo, pode ser complicado comprar ou arranjar o bilhete, estacionar perto, não ter horários compatíveis ou não ter urgência, porque acha que terá muitas oportunidades no futuro.

Perceber em que estágio está o seu público e perceber as razões de estagnação ou até retrocesso em cada estágio é essencial para definir as estratégias de comunicação mais correctas, que incentivem a que cada vez mais pessoas percorram todo o Funil.


Marcar posição!

Depois de se ter segmentado e definido o público alvo, a organização deverá avaliar o seu posicionamento, com base na análise das suas principais forças e fraquezas, tendo em conta o que mais apela ao seu público.

“O processo de desenvolver um posicionamento estratégico focado é o acto de criar uma imagem e oferta da organização que ocupa um lugar distinto e valorizado nas mentes do público alvo”

Bernstein, Joanne Scheff – Standing Room Only

Para que esse posicionamento funcione, é, no entanto, necessário que crie uma diferenciação real e que seja percebido pelos outros. Ou seja, não basta internamente decidir-se que a organização vai-se posicionar com uma oferta de qualidade superior, se depois isso não é transmitido em todos os aspecto da comunicação e na experiência do público.

Um produto ou organização pode evocar várias associações junto do público, consoante a perceção que as pessoas obtêm nos vários contactos com a organização ou semelhantes, quer sejam contactos diretos (experiências anteriores, pesquisas, etc.) ou indiretos (através do “boca a boca”, por exemplo). As pessoas podem ter uma percepção que assistir a ópera é caro e uma organização que tenha uma estratégia de preços competitiva e em linha com produtos substitutos percebidos como mais baratos (ex: concertos sinfónicos), tem que conseguir comunicar esse seu posicionamento e alterar essa percepção. A definição do posicionamento é essencial para influenciar as percepções e escolhas por parte do público. Um posicionamento claro, irá também influenciar que todos os elementos do marketing mix da organização estejam consistentes e alinhados.

Uma organização pode basear o seu posicionamento com base em vários atributos. Podem ser baseados nas estruturas da organização (por exemplo, o edifício), no tipo/estilo dos programa e produtos ou por ter artistas conceituados nos seus quadros ou produções. Essa definição não tem que ser baseado em apenas um atributo, naturalmente, porque as organizações não são unidimensionais, mas a comunicação só poderá realçar um ou dois, consoante o que seja mais atrativo para o público alvo.

Dentro de uma organização poderá, inclusive, haver diferentes posicionamentos para os vários produtos que apresenta. Um exemplo óbvio é o serviço educativo que uma organização possa ter, cujo posicionamento será sempre diferenciado da restante programação, focada no público mais adulto.

As escolhas para o posicionamento da organização são imensas, desde oferecer a maior qualidade possível, com produções caras e altamente desenvolvidas, ser o mais acessível possível e com grande proximidade à comunidade onde está inserida, atrair turistas ou especializar-se num estilo ou período histórico. O importante é que a definição seja feita, como já disse, com base numa análise rigorosa dos seus pontos fracos e fortes, indo de encontro à efetiva procura/necessidade por parte do público. Posicionar-se num segmento onde já existem muitos e fortes competidores, poderá impossibilitar diferenciar-se dos demais e consequentemente levar ao insucesso.

Algumas organizações podem, naturalmente, optar por não se comprometer com nenhum posicionamento em específico. Não é impossível que estas organização tenham sucesso, nomeadamente se tiverem pouca competição, mas no longo prazo, poderá ser mais complicado garantir a sua sobrevivência.

O posicionamento de uma organização não terá que ser obrigatoriamente algo estático, podendo ir evoluindo ao longo do tempo, conforme a organização se vai desenvolvendo e a sociedade se vai alterando. O que nunca poderá fazer é parecer que vai “à deriva”, fazendo constantemente atos contrários ao posicionamento em que se quer definir.

Resumindo, as organizações devem ter um conjunto de atributos ou ofertas que verdadeiramente os diferencia da competição e que lhes dá uma identidade clara na mente do público.

Tornar-me digital?

Com o início da situação pandémica e para tentar combater a crise que o sector está a atravessar, muitos artistas e organizações viraram-se para o meio digital para, de alguma forma, continuar a sua atividade. Mas poderá ser essa a solução, quando não se prevê (se é que irá haver) um regresso à normalidade? Não tenciono deixar soluções mágicas (até porque não existem), mas fazer um apanhado sobre as várias possibilidades, bem como alguns prós e contras.

Mesmo que possam funcionar com restrições sanitárias, a grande maioria das atividades culturais precisa de ter gente, quer na plateia, quer em cima do palco, que possa interagir, para que a arte se cumpra. Por isso e por muito que parte da experiência possa ser “digitalizada”, esta opção nunca será uma substituta efectiva, pelo menos nos formatos que hoje conhecemos. Não excluo no entanto, que para futuras gerações o acto de ir fisicamente a uma sala de espetáculos ou museu, possa ser tão estranho ou desnecessário como é, para a maioria de nós, ir a um tanque público lavar a roupa…

Com o confinamento, muitos dos artistas viraram-se para o online. Muitos músicos fizeram concertos caseiros para os seus seguidores nas redes sociais, salas de espetáculo promoveram e transmitiram em streaming ou publicaram gravações, organizaram-se festivais e conferências totalmente digitais, etc, etc.

Hoje, existem muitas ferramentas que permitem que seja relativamente fácil um agente cultural mostrar o seu produto via digital. As redes sociais na sua maioria permitem publicar conteúdos ou transmitir em direto. Neste ponto, o algoritmo destas plataformas dão preferência a conteúdos em direto, pelo que será preferível dar prioridade a esse formato.

A título de curiosidade, aqui ficam as principais características de cada plataforma:

Youtube

  • Permite transmitir ao vivo a partir do computador ou telefone
  • Oferece a mais alta qualidade de vídeo
  • Permite programar transmissões ao vivo para qualquer momento no futuro, permitindo avisar o seu público
  • O público pode comentar em tempo real
  • Permite ter uma secção de ‘vídeos ao vivo’ no canal
  • Permite enviar notificações básicas ao público, antes e durante as transmissões ao vivo
  • Os vídeos continuam disponíveis após a transmissão
  • É necessário ter 1000 subscritores do canal para fazer diretos a partir do telemóvel

Facebook

  • Permite transmitir ao vivo a partir do computador ou telefone
  • Qualidade máxima de 720p
  • Permite agendar transmissões ao vivo com até sete dias de antecedência, de forma a avisar o público
  • Permite criar eventos do Facebook para transmissões ao vivo, permitindo dar mais informações e criar notificações
  • O público pode comentar em tempo real
  • Permite enviar notificações antes e durante as transmissões ao vivo
  • Os vídeos continuam disponíveis depois da transmissão

Twitter

  • Só permite transmitir em direto a partir do telemóvel
  • Qualidade máxima de 720p
  • Não há função de agendamento
  • O público pode comentar em tempo real
  • Permite enviar notificações durante as transmissões ao vivo (mas os utilizadores têm que ativar)
  • Os vídeos continuam disponíveis depois da transmissão
  • Permite convidar pessoas para participar na transmissão ao vivo nos seus dispositivos

Instagram

  • Só permite transmitir em direto a partir do telemóvel
  • Qualidade máxima de 720p
  • Não há função de agendamento
  • O público pode comentar em tempo real
  • Permite enviar notificações durante as transmissões ao vivo
  • Os vídeos não continuam disponíveis depois da transmissão
  • Permite convidar pessoas para participar na transmissão ao vivo nos seus dispositivos

Como é óbvio, transmitir um concerto ou espetáculo online nunca será o mesmo que o fazer ao vivo. Por muito boa qualidade que tenha a transmissão, qualidade de som, imagem e dos dispositivos onde o público está a visionar, a experiência nunca será a mesma. Por isso mesmo, o objetivo nunca poderá ser tentar replicar a experiência ao vivo , correndo o risco de rapidamente perder o interesse por parte do público.

Por exemplo, se se analisar o número de visualizações de transmissões de algumas organizações, facilmente encontramos números na ordem dos milhares de visualizações. O problema é que, por exemplo, o Facebook conta como visualização a partir dos 3 segundos, ou seja, ter esses milhares não significa que essas pessoas estiveram mesmo a assistir. Provavelmente muitas delas só pararam um pouco ao fazer o scroll no seu Feed, estando apenas algumas centenas a assistir em simultâneo ao longo da transmissão. O importante é conseguir manter o público “preso” em grande parte da transmissão e essa é a parte difícil, numa época em que facilmente a pessoa é distraída por outras chamadas de atenção, o que não aconteceria tão facilmente se o tivesse a assistir ao vivo.

A organização/artista deverá analisar o seu conteúdo/produto e equipamentos/condições técnicas que tem disponíveis e tentar perceber qual a melhor forma de o adaptar aos pequenos ecrãs, de uma forma que cative e envolva o público.

O contra mais importante é o problema da obtenção de rendimentos ou monetização dos conteúdos online. Serão muito poucas as pessoas que estão, à partida, dispostas a pagar bilhete para um concerto online, mesmo que seja uma produção de qualidade. Só que, o perigo de ceder conteúdos gratuitamente é diminuir a disponibilidade das pessoas para pagar por eles posteriormente. Há várias formas de obter rendimento diretos ou indiretos com a disponibilização de conteúdos online: através da criação de links de donativos na transmissão, venda de bilhetes (acessos), crowdfunding ou a venda de merchandising.

Independentemente do modelo escolhido, o importante é que se consiga criar valor e interesse para o público no conteúdo apresentado, de forma a que ele assista à transmissão e depois que a valorize de tal forma que esteja disposto a pagar ou a deixar a sua contribuição. A comunicação anterior à transmissão é muito importante e deverá ser capaz criar um ‘hype’ grande, nomeadamente entre os mais seguidores, possibilitando que estes sejam também agentes de promoção, partilhando o evento. E depois, o evento deverá ir de encontro às expectativas criadas, com conteúdo que seja interessante e adequado à plataforma utilizada. Por exemplo, quando um utilizador do Facebook ou Instagram se encontra a assistir a um ‘direto’, parte do interesse é também interagir com o promotor do direto e com as outras pessoas que estão a assistir, ou então, alguém que esteja disposto a pagar o acesso a uma transmissão em direto de um bailado de uma determinada companhia, para poder ver no seu televisor de 55 polegadas, não vai gostar que a qualidade de som e imagem seja fraca. Negligenciar estes aspetos, poderá pôr em causa qualquer possibilidade de obtenção de rendimentos e mesmo assim, isso não está assegurado.

A obtenção de rendimentos através dos meios digitais, apesar de ser uma necessidade urgente para o sector, é um ainda um caminho longo e difícil que as organizações culturais têm que fazer, sendo também necessário uma mudança de mentalidades na sociedade. Esperamos, no entanto, que esta necessidade seja o mais passageira possível, regressando rapidamente às salas cheias e sem restrições e ficando as ferramentas digitais como meios complementares à criação e divulgação artística.

De Rafeiro a Estrela

Qualquer organização cultural/artista, quer seja criador ou programador, tem um portfólio de produtos, em que uns têm mais rentabilidade ou perspectivas de evolução do que outros. Conseguir distinguir uns de outros é essencial para perceber o investimento necessário e definir as estratégias mais adequadas para cada produto.

A Boston Consulting Group criou uma matriz (chamada matriz BCG), que utiliza os critérios “Quota de Mercado” e “Crescimento de Mercado” para determinar a atractividade e o equilíbrio de um determinado portfólio de uma empresa. As organizações culturais também podem utilizar esta mesma matriz para perceber a atractividade dos seus produtos e consequentemente definir as melhores estratégias a adoptar para cada um.

Matriz BCG

Estrelas

Os produtos estrela são produtos com muita quota de mercado, num mercado que está em crescimento. Poderá implicar um forte investimento na organização para conseguir acompanhar o crescimento desse mercado, mas como tem uma quota grande, o retorno deverá ser mais do que suficiente para compensar esse investimento. No mundo cultural, poderá traduzir-se num novo festival ou tipo de espetáculo mais ou menos inovador, cujo conceito tem vindo a ganhar adeptos e que por isso está em crescimento. Por exemplo, as feiras medievais há uns anos.

Vacas Leiteiras

São os produtos da organização que têm uma quota de mercado alta num mercado já estabelecido. Como o crescimento deste mercado é pouco, significa que não será necessário grandes investimentos e como a organização já tem uma quota grande deste mercado, o produto deverá ser lucrativo. Estes produtos poderão ser uma fonte importante de receita, para que a organização possa financiar outros projetos. Falamos por exemplo de festivais já instalados e com prestígio, eventos sazonais (ex: sessões de circo de Natal no Coliseu) ou de determinado espetáculo de alguma companhia de teatro ou dança com notoriedade.

Pontos de Interrogação

São produtos cujo o mercado se encontra em crescimento, mas que ainda não conseguiram obter uma quota significativa desse mercado. Para que se consiga transformar estes produtos em produtos estrela, poderá ser necessário fazer investimentos fortes, sem que, no entanto, isso signifique que o sucesso seja obtido. Aquando a criação de novos projetos artísticos, por defeito eles serão Pontos de Interrogação, devendo a organização/artista definir as melhores estratégias para que estes se tornem Estrela. Poderá ser útil ou aconselhável que as organizações tenham no seu portfólio vários Pontos de Interrogação.

Rafeiros

São os produtos com pouca quota de mercado num mercado estagnado ou em declínio. Podem ser produtos consumidores de demasiados recursos e tempo, tendo em conta o seu retorno. Por norma, serão os produtos em que as organizações deverão ponderar o seu encerramento

Esta matriz poderá ser um ótimo meio para que as organizações visualizem as diferentes necessidades e potenciais dos seus produtos, percebam as necessidades financeiras que cada um poderá ter ou aqueles em que se poderá obter maiores proveitos que financiem os restantes (nomeadamente os Pontos de Interrogação). Também poderá ajudar a definir as estratégias de marketing necessárias para cada um deles.

É preciso também que as organizações tenham em mente que a classificação dos produtos não é estática e que os produtos que num determinado momento estejam colocados num determinado quadrante, mais tarde ou mais cedo, poderão deslocar-se para outro. Ou seja, produtos Vacas Leiteiras, facilmente poderão tornar-se Rafeiros, caso o interesse pelo produto se desvaneça ou voltarem a ser Estrelas, caso haja alguma alteração tecnológica ou no ambiente externo que faça o mercado voltar a crescer (sendo necessário, naturalmente, que haja um investimento que os consiga fazer acompanhar). Poderá, também, ser difícil para uma organização deixar “morrer um Rafeiro”, se, por exemplo, esse Rafeiro fôr um produto emblemático (ou com valor sentimental) da organização, de tal forma que faça parte da base da organização, mesmo que já não tenha nenhum rendimento.


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Quero algo… inovador?

A forma como os consumidores encaram a possibilidade de experienciar um novo produto difere imenso, sendo alguns mais adversos ao risco do que outros e isso também é verdade nos produtos culturais. Para atrair o público, as organizações devem, por isso, perceber as suas motivações pessoais, como forma de adaptar a sua programação, mas acima de tudo a sua mensagem.

A Teoria da Difusão da Inovação de Everett Rogers, agrupa o público (consumidores) pela sua predisposição para experimentar novos produtos:

Inovador (2,5%)

Os Inovadores são apenas 2,5% dos consumidores e são aqueles que estão sempre dispostos a experimentar produtos novos. Procuram novos estímulos e gostam de estar presentes nas estreias, em novas produções ou em espetáculos de estilos artísticos vanguardistas. São jovens, financeiramente estáveis e com educação superior.

Adoptante precoce (13,5%)

São aqueles que seguem o exemplo dos Inovadores, mas podem ser considerados aqueles que vão “estabelecer as tendências” para as maiorias. Demograficamente são semelhantes ao grupo anterior, mas não têm tantos contactos e conhecimentos. Eles irão frequentar/consumir determinado novo produto cultural porque “ouviram dizer daqueles que percebem” que é a “nova cena”. Se este grupo gostar, serão eles a influenciar as Maiorias.

Maioria Inicial (34%) e Maioria Tardia (34%)

Estes dois grupos são constituídos essencialmente por pessoas da classe média e que, quando tomam decisões seguem os conselhos de outros grupos de influência. A Maioria Inicial irá seguir as indicações através dos vários tipos de media (ex: críticos) e se virem que os Adoptantes precoces consideraram algo um sucesso, também irão aderir.

A Maioria Tardia, é um pouco mais velha e menos rica do que a Inicial e também ainda mais adversa ao risco. Confiam mais na opinião dos amigos e conhecidos do que na dos media e só irão frequentar algo se estes tiverem gostado. Nesta fase da vida do produto, os Inovadores e Adoptantes precoces já perderam o interesse e já não o frequentam.

Retardatários (13,5%) e Não-adoptantes (2,5%)

Os Retardatários são aqueles que não têm grande interesse em novas experiências. Não têm muita confiança em frequentar um teatro ou concerto, porque consideram que não irão perceber nada do que está a acontecer e que até se podem sentir ridicularizados. Pode ser difícil motivá-los a deslocarem-se ao produto cultural, mas é possível alcança-los levando o produto cultural até eles, por exemplo com concertos em locais públicos.

Os Não-adoptantes, para além de não ter qualquer interesse nos produtos culturais, são até bastante hostis com a cultura, por considerarem que esta é uma ameaça aos seus valores. O máximo que as organizações conseguem com este grupo é neutralizar a sua hostilidade.

Com esta teoria em mente, as organizações devem pensar na sua programação ou produtos e perceber como é que encaixa nos vários grupos. Uma companhia de dança moderna, que está constantemente a estrear espetáculos inovadores, tem que saber que no início terá que comunicar e cativar os dois primeiros grupos, mais ávidos de coisas novas. Depois disso, quando o espetáculo já está há algum tempo em cena e ganhou alguma notoriedade, terá que mudar a mensagem, aproveitando o buzz dos dois primeiros grupos, para ganhar a confiança das Maiorias. Ou seja, a mensagem deve ser sempre adaptada ao tipo de público que queremos cativar. Uma organização mais ligada à programação, sabe, à partida, que se programar só espetáculos vanguardistas, irá estar a alhear uma fatia importante do público. Não estou a dizer que está errado, porque muitas vezes essa opção faz parte da missão da organização, mas sim que a organização tem que trabalhar toda a sua comunicação de uma forma que atraia o tipo de público correcto.


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Como estruturar campanhas online?

As ferramentas digitais, nomeadamente as chamadas de social media, são hoje indispensáveis na estratégia de comunicação de qualquer empresa. Isso é verdadeiro também para as organizações culturais. São um meio de interação direta com o público, mas acima de tudo um meio de publicidade muito forte, capaz de entregar a mensagem diretamente ao público alvo. Mas como tirar o melhor partido desta ferramenta?

As ferramentas digitais trouxeram uma grande inovação na forma de fazer publicidade face aos meios de mass media (televisão, rádio, etc.), que é a possibilidade de segmentar o público alvo, de uma forma como nunca foi possível. Os meios de mass media, expunham (e expõem) a mensagem publicitária a muita gente, mas não há muita maneira de saber se ela é entregue a quem interessa mais. As organizações tentavam compensar isso, procurando publicitar nos meios/canais que eram mais frequentados pelo seu público (ex: revistas da especialidade), mas as ferramentas de social media trouxeram a possibilidade de se dirigir diretamente ao público que mais interessa, contribuindo para o sucesso dos objetivos de comunicação.

As várias plataformas de social media (Facebook, Instagram, Youtube, Google, etc.), têm os seus próprios sistemas de publicidade, mas a nível estrutural têm semelhanças na maneira de se definir e organizar uma campanha publicitária. Estão estruturadas em 3 níveis:

Campanha

Na campanha, é definido o objetivo pretendido principal para campanha publicitária. Este objetivo pode ser divulgação da marca (brandawareness), obter mais tráfego para o site, mais interações, visualizações de vídeo, geração de leads (criação de lista de contactos), vendas ou outro tipo de conversões. Dependendo da escolha, algumas opções nos passos seguintes poderão ser diferenciadas, nomeadamente o modo de cobrança, que poderá ser por click ou por visualizações. Aqui também é possível definir a criação de testes A/B. Os testes A/B são pequenas modificações que se podem fazer a uma campanha, como por exemplo mudar pequenos detalhes gráficos nos materiais (ex: cor do botão), para que se possa perceber se há diferenças na reação das pessoas à campanha. Também poderá ser possível definir o orçamento da campanha.

Conjuntos de anúncios

Depois de definirmos o objetivo geral da campanha, temos que decidir a quem nos queremos dirigir e por isso, nesta secção podemos definir o(s) público(s) alvo(s). Pode ser selecionado, com base em dados demográficos, geográficos, interesses, comportamentos, idiomas, etc. Podemos também definir os locais (ex: Facebook ou Instagram ou Messenger, etc.) onde queremos publicitar e em que tipo de dispositivos (ex: iPhone ou Android). Aqui também se pode definir o orçamento diário para o conjunto de anúncios e as datas de início e de fim.

Para cada campanha, podem ser organizados vários conjuntos de anúncios. Mas qual a utilidade disso? Uma organização pode definir uma campanha para um determinado objetivo, mas sabe que tem vários tipos de público com características diferenciadas e que por isso têm que ser abordadas de forma diferente. Por isso pode ser essencial criar anúncios com mensagens diferentes, imagens diferentes, mais centrados em vídeo ou em imagens, etc, de forma a que estes vão de encontro e sejam mais apelativos aos vários segmentos de público.

Anúncios

Depois de definidos os vários segmentos de público, definimos os criativos para cada um. Os criativos são as imagens ou vídeos que irão aparecer nos vários locais de publicação. É também definido o texto que o acompanha e o link para onde se pretende encaminha (se fôr esse o objetivo). É importante que cada local de publicação tenha um criativo compatível e saia favorecido. Por exemplo o formato usado no feed do Facebook, pode não ser compatível com o Histórias ou outras apps e por isso é essencial ter vários formatos do criativo que encaixem nos diferentes locais (ou então não se publicar nesse local).

Após definidos estes passos, basta começar a campanha. O ideal será começar por fazer por poucos dias (3 a 5 dias), para que se possa analisar os resultados e fazer ajustes, se necessário. Mas antes de fazer qualquer anúncio, o que a organização deve pensar é se a nível estratégico isso se ajusta aos seus objetivos. Deverá perceber qual o orçamento que tem para promoção e se a aplicação desse (ou de parte desse) orçamento em publicidade online irá trazer-lhe retorno. Por exemplo, se o objetivo é vender bilhetes para um espetáculo, se conseguirmos criar uma campanha que custe 2 ou 3 cêntimos por click e que a cada 100 clicks conseguimos vender 2 ou 3 bilhetes, dependendo do lucro de cada bilhete, o retorno poderá valer o investimento.

Devem é ter em conta que a criação de campanhas é um processo de aprendizagem e que se terá que estar sempre a analisar o que funcionou melhor e porque é que funcionou melhor, para se conseguir ter melhores resultados no futuro.


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Financiamento: Privado vs Público

Nos últimos artigos, fui abordando que muito raramente as organizações culturais conseguem subsistir somente à custa das receitas provenientes de vendas e bilheteira. Por isso, para este tipo de organizações a obtenção de financiamento público e/ou privado é essencial para a sua subsistência. Por essa mesma razão, este será um tema que continuará a ser aprofundado em futuros artigos, uma vez que é ou deveria ser central na atividade da organização. Hoje ficarei por uma abordagem geral na diferença entre modo como são financiadas as organizações culturais em Portugal e em Inglaterra.

Há uma diferença cultural grande entre os países anglo-saxónicos e os europeus continentais, na forma como é abordada o financiamento das organizações culturais, quer pelas entidades públicas, quer por particulares. Em Inglaterra e nos Estados Unidos há uma maior tendência a que haja um grande financiamento privado, através de donativos de particulares ou empresas. São incentivados pelos benefícios fiscais, naturalmente, mas também há um certo prestígio social associado, para quem atingiu um certo nível de riqueza, que é valorizado nesses países, em oferecer grandes donativos a organizações culturais e/ou científicas.

Nos países europeus continentais, a tendência é que se considere que deve ser o estado a tomar as rédeas do financiamento de organizações culturais, mesmo que esse financiamento seja continuamente insuficiente, como acontece em alguns países. Ainda esta semana soubemos que o próximo orçamento de estado prevê uma despesa total de 313,1 milhões de euros para a cultura (se excluirmos a RTP), o que equivale a uma percentagem de 0,21% do orçamento. Quando a reivindicação do sector há anos que é 1%…

Receitas anuais das organizações financiadas pelo Arts Council em Inglaterra em 2018/19, por tipo de financiamento (em 1,000 GBP) – Fonte Statista 2020

Não encontrei dados consolidados, semelhantes ao gráfico em cima, para Portugal, mas gostaria lançar alguns dados para se comparar. Salvaguardo, desde já, a diferença no tamanho do país, poder de compra, etc. Mas a ideia aqui não é tanto discutir os valores, mas sim perceber a diferença no tipo de receitas nas organizações culturais dos dois países e a sua importância relativa.

Se entendermos o Arts Council (ACE) como uma espécie de DGARTES inglesa, ou seja, uma entidade que gere o apoio e financiamento de organizações e projetos artísticos, para além da diferença de orçamento (na DGARTES o montante global de financiamento em 2017 foi de cerca de 16 milhões de euros e em 2018 o valor estabelecido era de 17,6 milhões(1) o que é uma grande diferença para os quase 440 milhões de libras em 18/19 do ACE), a entidade inglesa é em grande parte financiada pela lotaria inglesa. (Gostaria de fazer um pequeno parênteses, para lembrar que por cá a lotaria já serviu para financiar o pagamento de dívidas fiscais dos clubes de futebol. Opções…)

A nível de financiamento público, em Inglaterra, o orçamento de estado costuma ter uma verba de cerca de 900 milhões de libras(2), ao que podemos acrescentar os cerca de 262 milhões de entidades locais e outros subsídios públicos. Em Portugal, o orçamento de estado, como já disse anteriormente, tem pouco mais de 300 milhões de euros para a cultura (que já inclui o valor da DGARTES) e os municípios gastaram em 2018 cerca de 470 milhões de euros em atividades culturais(3). Aqui é curioso verificar que o valor gasto pelas municípios na cultura é maior do que o do orçamento de estado, nada semelhante ao que se passa em Inglaterra.

A nível de financiamento privado a diferença é muito acentuada. O valor dos donativos para a cultura em Inglaterra é um pouco acima dos 260 milhões de libras, enquanto que em Portugal o total dos donativos em 2018 (que em grande parte devem ter sido atribuídos a instituições de solidariedade social) foi cerca de 189 milhões de euros.

A nível de receitas, enquanto que em Inglaterra ultrapassou os 1000 milhões de libras, em Portugal, os espetáculos ao vivo tiveram receitas de bilheteira de pouco mais de 125 milhões de euros.(4)

Se fizermos uma análise geral, vê-mos que no Reino Unido o financiamento das entidades culturais através dos privados é cerca de 1765 milhões de libras contra 1162 milhões de fundos públicos públicos. Já em Portugal temos cerca de 314 milhões de euros de dinheiro privado, contra 783 de dinheiro público para as entidades culturais. Nestas contas incluí o ACE como financiamento privado, uma vez que é financiado pela lotaria e nas contas portuguesas é preciso notar que os donativos inclui instituições não culturais e que a bilheteira só inclui espetáculos ao vivos (não incluindo museus, por exemplo). Mas creio que dá para perceber a diferença na estrutura de financiamento nas organizações culturais em Inglaterra e em Portugal.

Os que acham que deve ser o estado a assumir o papel de financiar as artes e a cultura, acredita que entregar esse papel aos privados deixa as instituições à mercê dos interesses privados e o consequente risco de definir a sua programação com uma visão puramente comercial. Quem considera que o financiamento deve ser maioritariamente privado, acha que demasiado financiamento público poderá dar aso a aproveitamentos políticos…

O meu intuito aqui não é opinar sobre qual o modelo mais correcto, mas simplesmente alertar sobre estas diferenças, que são importantes para a tomada de decisão nas organizações culturais sobre quais as estratégias a utilizar para a obtenção de fundos. Algumas dessas estratégias serão, certamente, abordadas em futuros artigos.


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Já sabes o que aconteceu no mundo das artes esta semana?

Todas as sextas a arte vem ter contigo e em 5 minutos ficas a par de tudo do que relevante aconteceu na área da cultura.

Só precisas de deixar aqui o teu email:

(1) Relatório Estatístico 2017
(2) How are the arts funded in the UK?
(3) Despesa das Câmaras Municipais em cultura e desporto: total e por domínio cultural (2013-)
(4) Espectáculos ao vivo: receitas de bilheteira

O preço a pagar

Como vimos no artigo da passada semana (“Cultura, grátis?“), nem sempre as organizações culturais têm na bilheteira a sua principal fonte de receita e consequentemente não estipulam nenhuma estratégia específica para este aspecto. Mas as organizações podem e devem olhar para o preço, não só como uma fonte de receita, mas também como meio de comunicação do seu produto. Mas quais as principiais estratégias para a estipulação dos preços?

Existem vários métodos para estipular o preço e mesmo que as organizações não estejam totalmente dependentes do público para obter as suas receitas, convém conhecer as três abordagens mais básicas para o estipular:

Pelo custo:

Ao pensar o preço, um dos aspectos mais importantes que a organização deve ter em conta é o custo do produto (ou de cada apresentação). Numa organização comercial, o preço tem que no mínimo cobrir os custos associados ou então, mais cedo ou mais tarde o negócio terá que fechar. Numa organização cultural, nem sempre é assim e os preços são muitas vezes estipulados abaixo do custo. Uma das razões é que determinados tipos de produtos culturais, para que pudessem ser rentáveis unicamente através da bilheteira, os preços teriam que ser tão altos que provavelmente não conseguiriam captar o número mínimo de público. Depois, sendo a maioria das organizações culturais, organizações sem fins lucrativos, não existe nos gestores o estímulo de maximizar vendas para obter lucros. No entanto, isto não significa que não seja necessário olhar para os custos para definir os preços, uma vez que quanto mais receita for feita pela bilheteira, menos esforço é necessário a organização dedicar na busca por financiamento alternativo, seja ele público ou privado.

O custo do produto é calculado através da determinação dos custos fixos e dos custos variáveis. Os fixos são aqueles que a organização incorre mesmo que não promova nenhuma atividade. São custos que a nível contratual não são facilmente revogados, por exemplo, contratos de trabalho, alugueres de espaços e equipamentos, água e luz (mesmo tendo estes uma componente variável), etc. Quanto maiores forem os custos fixos, maior deve ser a atividade da organização, para que possa rentabiliza-los. Por isso, antes de tomar a decisão de incorrer em mais custos fixos, a organização deverá ponderar bem se os mesmos serão cobertos pela geração de receita, independentemente da sua proveniência.

Os custos variáveis são os mais difíceis de calcular porque nem sempre são óbvios para a organização, nomeadamente quando se está a falar de serviços culturais. No entanto, podem ser definidos como os custos que a organização tem por cada apresentação ou atividade extra. Ou seja, neste caso, quanto maior fôr a atividade, maiores serão os custos. Podem ser a contratação de músicos ou atores através da prestação de serviços, os custos decorrentes da montagem de uma exposição ou o incremento de gastos de luz e água com a atividade.

Caso seja possível à organização determinar o total dos seus custos fixos e variáveis, poderá usar a fórmula de ponto de equilíbrio (breakeven) que indica quantos bilhetes precisaria vender para cobrir todos os custos com um determinado preço. O cálculo é feito dividindo os custos fixos (CF) pelo preço por bilhete (PB), menos os custos variáveis (CV) por bilhete.

CF/(PB – CV) = Nº Bilhetes

Como os custos variáveis estão diretamente retirados no preço dos bilhetes, isso significa que a receita restante deverá cobrir os custos fixos. Só depois dos custos fixos serem cobertos é que a organização está a dar lucro. Se a organização entender que não será possível vender os bilhetes necessários para obter o ponto de equilíbrio, a organização deverá decidir sobre 3 alternativas: baixar os custos fixos, subir o preço dos bilhetes ou assumir o prejuízo, procurando outras fontes de receita para cobrir os custos fixos.

“O momento em que cometes um erro na estipulação do preço, tu estás a prejudicar ou a tua reputação ou os teus lucros.”

Katharine Paine – News Group

Pela competição

Pela especificidade do seu produto, que muitas vezes é inimitável (não é possível ter dois Simons Rattles em simultâneo a dirigir duas Filarmónicas de Berlim, por exemplo), as organizações preocupam-se mais em comunicar a qualidade do seu espetáculo do que o seu preço, sendo que o público normalmente o aceita como sendo o preço correto, por não ser fácil comparar diretamente com produtos semelhantes. Isso não significa, primeiro, que o público o esteja disposto a pagar e que, caso isso não aconteça, se baixar o preço isso tenha efeitos positivos.

No entanto, as organizações podem e devem usar os preços das organizações concorrentes como guia para o estabelecimento dos seus preços. Isto parte do pressuposto que o público tem em conta o preço das atividades que pretende frequentar e irá tomar a sua decisão com base em várias aspectos incluindo o preço. Nomeadamente, quando hoje em dia o público tem acesso fácil e rápido, através de aplicações móveis, a informação sobre as várias atividades no local onde se encontra, podendo comparar vários aspectos onde se inclui o preço. Com isto em mente, as organizações podem aproveitar estas aplicações para definir várias estratégias de promoções direcionadas, que possam atrair público que à partida não frequentaria os seus eventos.

Ao comparar o preço com os competidores, as organizações não devem só ter em conta as organizações similares, mas também outras organizações e atividades de lazer que possam ser alternativa. Por exemplo, as salas de cinema, serões em bares ou outros espaços noturnos, etc.

Pelo prestígio

Como já foi dito, o foco principal de uma organização cultural na sua comunicação é a qualidade do seu produto e não o preço. E por vezes, mesmo o preço das atividades concorrentes é irrelevante, uma vez que pela inimitabilidade e qualidade do seu produto, a organização pode cobrar preços altos que mesmo assim conseguirá captar público. Esse tipo de programas inclui a apresentação de uma super estrela, uma exposição de um artista conceituado ou então pelo próprio prestígio da organização e do seu espaço. Nestes casos, o público está disposto a pagar preços muito altos, porque valorizam a experiência que irão obter e porque sabem que irão frequentar algo cuja a oportunidade de o voltar a fazer é rara. Para que isso funcione, é preciso, naturalmente, que o público tenha a percepção da qualidade que a organização oferece, vendo o preço como adequado.

Não há, naturalmente, nenhuma razão para que as organizações usem apenas uma das abordagens na definição dos seus preços. As organizações mesmo que consigam facilmente estipular preços que lhes garanta o ponto de equilíbrio, não devem de deixar olhar para os concorrentes se isso lhes der indicações que conseguem obter receitas extras que podem ser usadas para reinvestir na organização e nos seus projetos. E devem também usar o preço como forma de comunicar a sua qualidade e prestígio e valorizar a sua atividade. Mesmo a utilização de bilhetes gratuitos é uma hipótese desde que enquadrada estrategicamente na organização, nos seus produtos e eventos.


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Cultura, grátis?

No sector cultural, o marketing é maioritariamente abordado na vertente de comunicação (promoção) e por vezes na vertente produto e distribuição. A vertente do marketing que poucas vezes é abordada é o preço! Isso acontece porque por norma, as receitas com bilheteira não cobrem as despesas associadas, tendo as organizações que obter rendimentos através de outros meios. No entanto, uma estratégia de preços adequada pode e deve ser usada, contribuindo para o aumento da assistência nos eventos e quiçá da receita.

Apesar de ser uma fonte de receita importante, são raras as organizações culturais a nível mundial que conseguem sobreviver à custa exclusivamente de bilheteira ou outros produtos associados, como por exemplo bar e merchandising. Em Portugal, essa situação é ainda mais premente. Se consultarmos o documento Estatísticas da Cultura de 2018 vemos que cerca de 2 em cada 3 bilhetes em espetáculos ao vivo são oferecidos, sendo só um vendido. A juntar a isso, as organizações culturais, sofrem do que em economia se designa por “doença dos custos” (cost disease), ou seja, é quase impossível reduzir custos na produção de produtos culturais ou ter ganhos de escala. Por exemplo, uma obra para orquestra sinfónica, para ser feita (tal como está definida) terá que ter sempre uma orquestra, não podendo ser feita por um quarteto para ser mais barato, ou seja ela é feita hoje exatamente como era há 200 anos. Com o aumento do nível de vida e consequentemente, o aumento dos salários dos músicos, entre outras coisas, torna-se cada vez mais caro produzir uma sinfonia.

Mesmo nos museus, onde à partida se poderia achar que não há grande aumento de custos, a pressão para que as exposições sejam mais interativas e com recurso a dispositivos tecnológicos, faz com que os custos acabem por aumentar também. Infelizmente, nem sempre esse aumento de custos pode ser compensado com o aumento no preço de bilheteira, uma vez que isso poderia resultar em preços incomportáveis para o público ou, mesmo que a subida fosse ligeira, não significaria num aumento de receita, uma vez que poderia resultar numa diminuição de público. Daí a dependência de fundos e financiamento de outras fontes.

Há dois problemas quando o produto é gratuito. Primeiro, envia a mensagem que a cultura não tem valor suficiente para cobrar e, segundo, uma vez que alguém recebe algo grátis, irá esperar por mais produtos “à borla” no futuro.

Baker, Tim e Roth, Steve – “Free is a Magic Number?” (2012)

Financiamento Público de Organizações Culturais

O financiamento de artistas e organizações culturais por parte de entidades públicas ou privadas, ou por pessoas a nível individual tem raízes históricas. Desde o financiamento por parte da igreja ou o mecenato por parte de algumas cortes e/ou nobreza, os artistas historicamente sempre contaram com o patrocínio da sua atividade. Porém, esse financiamento não era feito por razões puramente altruístas, mas continham quase sempre alguma intenção política ou religiosa. Mesmo quando os estados e as cidades chamaram a si a responsabilidade de financiar a cultura, foi muitas vezes com intenções políticas, como por exemplo, atrair turistas ou munícipes, usando a oferta cultural como sinal de uma maior qualidade de vida, face ao vizinho.

A pressão para que a utilização dos impostos na cultura seja justificada é cada vez maior e por isso os governos procuram justificar com argumentos mais específicos e que enfatizem uma melhoria geral da sociedade e comunidade, em vez do mais tradicional valor intrínseco e histórico da arte. Uma das razões que justificam o apoio á cultura é o facto de esta ser um complemento importante na formação e educação dos cidadãos. Outra, é o benefício económico que as organizações trazem para os locais em que estão inseridas, contribuindo para o desenvolvimento do seu tecido urbano e social.

ARTE PELA ARTE VS ARTE PARA O PÚBLICO

Tradicionalmente a tensão, muitas vezes criativa, que existia nas organizações culturais era somente entre aqueles responsáveis por criar e aqueles responsáveis por apresentar. Quais os programas a apresentar, como os apresentar e quem os apresentar, são as questões, que para quem trabalha dentro deste tipo de organizações, mais interessam. Se o público gosta ou não gosta, adere ou não adere, é, muitas vezes, secundário e no entendimento das organizações isso é muito mais culpa do próprio público, do que do programa em si. Facilmente conseguimo-nos lembrar do celeuma que a estreia e as declarações do realizador João César Monteiro fizeram, aquando a estreia do seu filme Branca de Neve, sendo um claro exemplo disso. Isso também só é (ou era) possível porque as organizações não dependem muito da bilheteira, como já foi dito anteriormente.

Mesmo a nível governamental, estava de certa forma determinado na maioria dos países democratas e desenvolvidos, que os governos deveriam financiar as artes, sem qualquer tipo de envolvimento no que toca às escolhas de criação e apresentação das mesmas. Nos últimos anos, isso não tem sido tão linear e cada vez há uma maior pressão dos governos para que as artes financiadas tenham interesse para o público, partindo do princípio que se os contribuintes pagam, estes devem, de algum modo, receber algo que vá de encontro aos seus gostos e necessidades. O discurso corrente do mundo artístico é que a arte é para toda a gente e deve ser vivida por todos, mas também é verdade que na realidade os eventos culturais, nomeadamente os de arte erudita, são frequentados por elites ou pelos próprios artistas, não sendo atrativo politicamente, o seu financiamento.

Para estar menos sujeita a pressões externas e consequentemente perder liberdades artísticas, um dos instrumentos que as organizações podem utilizar é a definição de uma política de preços, não só na bilheteira mas noutras fontes de rendimentos (quotas, subscrições, patrocínios…) como forma de maximizar quer a quantidade de público, quer a obtenção de receitas. Nem sempre, ser de borla significa que irá ter mais público… Para além do mais, a utilização de uma política de preços poderá ser uma ótima fonte de informação, para a definição e medição de objetivos e resultados das organizações.


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O produto cultural

No sector artístico ainda não está muito enraizado o conceito de produto (ou serviço) atribuído a uma obra, concerto ou exposição. Por muito valor histórico e cultural que possa ter, é preciso entender que a grande maioria do público vê o consumo cultural, como uma de várias opções, dependendo a sua escolha da percepção dos benefícios de cada uma. Tentarei responder às questões: Como faz o público a sua escolha e quais as categorias de produto cultural que podemos ter?

Pelas suas características um produto cultural assemelha-se mais a um serviço do que a um produto. Mesmo quando se trata de um livro, quadro ou cd, o benefício não é o objeto em si, mas a experiência que eles dão ao consumidor. As características que distinguem, de forma geral, um produto de um serviço são: a sua intangibilidade, uma vez que o benefício de uma experiência artística não é palpável; a inseparabilidade, porque não se consegue separar o ato da compra do benefício; e a pericibilidade, uma vez que os serviços não podem ser armazenados, ou seja, não é possível vender bilhetes para um espetáculo depois de ele ter ocorrido. Conhecer as características específicas do produto cultural e perceber como os consumidores percepcionam e categorizam o produto é importantíssimo para a definição das estratégias de distribuição, embalagem, branding, categorização e criação de conhecimento sobre o produto.

CADEIA DE VALOR DO PROCESSO DE DECISÃO

O processo de decisão sobre o consumo ou não de um determinado produto ou serviço, passa por várias fases e tipos de informação:

  1. Características (o que é?) – quais as características do produto, como por exemplo, hora e data da apresentação, nome do performer e programa, local e os seus atributos físicos, etc. Este tipo de informação é aquele em que as organizações por norma centram a sua atenção no momento de promoção.
  2. Benefícios (o que faz por/para mim?) – quais os principais benefícios que o consumidor irá obter, que pode ser aprendizagem e autoaperfeiçoamento, relaxamento, ocasião social, etc. Muitas vezes, as organizações não conseguem comunicar eficazmente os benefícios obtidos pelo seu público, sendo verdade que muitas vezes os mesmo não são claros.
  3. Valores (o que significa para mim?) – muitas vezes o consumo cultural vai de encontro aos valores do consumidor e é por isso um meio de realização pessoal. Também é normal que consumidores culturais regulares serem mais ligados à sua comunidade, contribuindo para ela, quer seja financeiramente, quer através de voluntariado.

Alguém que já seja um consumidor habitual, será por norma alguém que já está por dentro das características e dos seus benefícios, tomando a sua decisão baseada apenas nos seus valores. No entanto, para influenciar o comportamento das pessoas, as organizações devem primeiramente educar o seu público, fazendo-as conhecer as suas características, convencê-los que obterão determinados benefícios e só depois estes irão perceber se esse determinado produto cultural reflete os seus valores pessoais e consequentemente voltar a frequentar no futuro.

“Muitas vezes, as pessoas envolvidas no marketing [em organizações culturais] acreditam que basta anunciar a disponibilidade do produto na sua comunicação. (…) No entanto, para aqueles que apenas sabem da existência de música clássica, o anúncio de um recital barroco no Wigmore Hall poderá não ter qualquer significado.”

Kolb, Bonita – Marketing for Cultural Organizations (2013)

CATEGORIAS DE PRODUTO

Podemos categorizar os produtos em três categorias, produtos de conveniência, produtos comparáveis e produtos especiais. Sem querer entrar em muitos aspectos teóricos, resumidamente, produtos de conveniência são produtos cujas características são basicamente iguais de marca para marca, com valor baixo e em que o consumidor compra quase de forma rotineira, sem fazer grande pesquisa (por exemplo: fósforos), um produto comparável são aqueles cujos preços já são maiores e em que o consumidor irá tomar a sua decisão baseando-se nas características específicas do produto face à concorrência. Um produto especial, são produtos com características distintas e únicas, quer seja do próprio produto, quer seja da marca. Como se pode aplicar estas categorias aos produtos culturais?

Cultura como produto de conveniência

O produto cultural será um produto com bastante distribuição e custo baixo e muitas vezes terão elementos populares ou pops. Deverá ser apelável a um público amplo que está disposto a fazer compromissos face à qualidade, uma vez que a entrada também é barata ou até mesmo gratuita. Muitas vezes para o público é indiferente quais os artistas que irão estar a actuar ou o programa a ser apresentado, mas valorizam, claro, quando conseguem reconhecer pelo menos uma parte deste. Os grupos que tocam nas cerimónias de casamentos, por exemplo, entram facilmente nesta categoria. Mas muitas vezes as orquestras e organizações conceituadas, têm que, na sua programação, incluir deste tipo de eventos, como forma de oferecer um produto de entrada que poderá contribuir para cativar o público a frequentar outros. A comunicação deste tipo de produtos irá estar centrada no preço e conveniência do mesmo.

Cultura como produto comparável

Os consumidores culturais, quer sejam mais conhecedores ou não, na escolha do evento a frequentar vão fazer comparações com outras alternativas e a sua definição vai ter em conta quer as suas características (local, preço, artistas, etc.), como também os benefícios daí obtidos. Consumidores com mais conhecimentos estarão dispostos a pagar mais, por exemplo, por estar determinado artista a actuar, se achar que o benefício obtido o justifica. Também estarão dispostos a escolher um em detrimento de outro, se a sua localização for mais conveniente. A comunicação deste tipo de produtos estará focada principalmente nas suas características.

Cultura como produto especial

A arte, por defeito, já é um produto especial, com características únicas e distintas, quer seja na arte mais erudita, mas também na cultura pop. Alguém que pretenda ver uma exposição de Monet, não aceitará ver a exposição de outro pintor. Da mesma forma, alguém que quer ver um concerto de Coldplay, não aceita ver outra banda, mesmo que estejam a tocar as mesmas músicas. Pela mesma lógica, não é igual assistir a uma ópera no Scala de Milão ou num teatro municipal. A comunicação, naturalmente não se vai focar no preço, nem necessita focar-se nas características, uma vez que o público já terá conhecimentos sobre o que o produto tem para oferecer. Ou seja, a comunicação terá que se centrar nos valores associados.

Outros elementos do produto terão que ser tido em conta, indo assim de encontro ao que é procurado pelo consumidor. Um exemplo é a embalagem, ou seja, num evento a embalagem pode ser entendida como tudo o que rodeia a apresentação em si. Podemos estar a falar dos materiais de promoção e folhas de sala (conteúdos, grafismos, etc.), apresentação do espaço (hall de entrada, sala, decoração, etc.), atitude do staff, atividades acessórias (atividades educativas, portos de honra, etc.). Tudo isto entra na embalagem de um produto cultural e poderá fazer diferença na escolha e/ou regresso do público.


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